Araucária, 25 de dezembro de 2011

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O combate dos fundamentalistas à diversidade

O projeto escola sem partido volta à Câmara de Curitiba e revela a mente obtusa dos seus propositores

A professora mandou recado na agenda dos alunos de 4 e 5 anos informando que a turma do pré faria uma apresentação sobre Diversidade e pedindo que as crianças fossem com roupas coloridas.

Uma mãe achou estranho e comentou o assunto num grupo de WhatsApp. Assim, a história rodou e cresceu, relata o jornalista Rogério Galindo, da Gazeta do Povo. Quando chegou aos ouvidos do pastor da igreja Sara Nossa Terra, o vereador de Curitiba Thiago Ferro (PSDB), foi criado o factoide.

Ao invés do vereador procurar a escola e se esclarecer, o parlamentar levou sua bancada para reclamar na Secretaria da Educação. Ferro estava convencido de que tinha em mãos um argumento em favor do seu projeto escola sem partido, apresentado em parceria com os vereadores Ezequias Barros (PRP) e Osias Moraes (PRB).

Para eles, as “roupas coloridas” aludiriam às cores do arco-íris, símbolo do movimento gay. “Diversidade” deveria ser a diversidade sexual, para crianças da pré-escola!

Apenas uma mente obtusa para imaginar que os professores da rede pública não estejam preparados para trabalhar os conteúdos curriculares de forma adequada à idade das crianças.

Neste caso, a apresentação sobre diversidade na pré-escola fazia parte de um projeto para valorizar as diferenças entre as pessoas.

O projeto educacional utiliza imagens da Turma da Mônica para os alunos aprenderem que não há nada de errado em ser diferente. E o respeito à diferença é um tema necessário na formação dos nossas crianças nestes tempos de intolerância.

É importante para a formação dos jovens que aprendam a reconhecer o diferente e saber que ele também tem direitos iguais aos seus.

É isto o que não concebem aqueles que pretendem subjugar a escola a um controle fascista. Uma escola onde se impõe o que se pode ou não ensinar.

O projeto “escola sem partido” coloca proibições aos professores. Diz explicitamente que o professor não pode se aproveitar da “audiência cativa dos alunos” para “promover os seus próprios interesses, opiniões, concepções ou preferências ideológicas, religiosas, morais, políticas ou partidárias”. Acusa genericamente como se os professores fossem prosélitos.

Para isto, eles propõe que se coloque nas salas os deveres dos professores e as proibições para que estudantes possam denunciar seus professores, criando clima policialesco de controle e censura.

Outros projetos

O vereador tucano também tem outros projetos que visam vincular a escola a um programa político conservador. Ele é autor de uma proposta que proíbe se falar de sexualidade em sala de aula. A não ser para explicar a reprodução.

Uma terceira proposta do pastor é obrigar as escolas a realizarem atividades pelo Dia das Mães e Dia dos Pais. Ela faz frente à compreensão que vem crescendo para se realizar o Dia das Famílias. 

Inclusiva, a ideia reconhece que nem todos tem pai e mãe. Tem só mãe, só pai, padrasto, madrasta, avó, avô, pai e pai, mãe e mãe. Os arranjos familiares não se resumem a uma formação idealizada.

As diferenças de gênero, de sexo, de etnia, religiosas, sociais, culturais e econômicas não podem ser ignoradas pela escola.

Não foi à toa que as expressões diversidade e cores assustou a claque fundamentalista. O que pretendem os propositores do projeto “escola sem partido” é impor a doutrinação de uma concepção ideológica que toma por base a superioridade branca, masculina, heteronormativa, cristã e de classe média. O que for diferente deve se adaptar ao padrão. Seria o retorno ao totalitarismo patriarcal.

Esta posição é reforçada por outro projeto do pastor. Este afirma que, até os 16 anos, a responsabilidade pelos filhos é dos pais. A escola deveria, portanto, se submeter a aquilo que os pais permitissem.

É de se imaginar como o professor se portaria numa turma em que há filho de cristão, filho de candomblecista e filho de muçulmano? Ignorando as diferenças para que se reconheça apenas uma religião ou abordando-as com responsabilidade para que todos compreendam os conceitos e valores destas e outras concepções?

Para Ferro, “professores não respeitam os preceitos morais de cada família”  e seriam responsáveis por uma erotização precoce das crianças por usar materiais com obscenidade ou pornografia. Certamente se referia a aulas de ciência para estudantes conhecerem o corpo humano. A erotização está nas mentes obtusas.

 

Existe a tal “ideologia de gênero”?

Maíra Zapater

A hierarquização de diferenças é o primeiro passo para a produção de injustiças: ensinar por gerações que há coisas e lugares “de homem” e “de mulher” ajuda a conservar conceitos e perpetuá-los em ações: nesse universo de valores hierarquizados conforme o sexo (que é, neste contexto, confundido com o gênero), nada melhor que “ser macho”, e nada pior que “ser mulherzinha”.

Essa valoração perversa ensina, de geração em geração, que é compreensível um rapaz censurar sua namorada por usar certo tipo de roupa (pois mulher que usa roupa “de puta” estaria em uma escala “inferior” de mulher, e cabe ao seu homem determinar que ela não deve se portar como tal), ou que “não levar desaforo pra casa é coisa de macho” (e aí aquele que evita a violência física é “menos macho”, e “ser macho” nessa ordem hierárquica é considerado o topo da cadeia de valores positivos). Ensina que “que gay precisa apanhar pra virar macho” (sendo a homossexualidade hierarquizada como algo “ruim”, e que deve ser “melhorada” e transformada em “macheza”) e que “macho traído tem que lavar sua honra com sangue se não quiser ser corno” (pois o homem que não controla sua mulher é, neste contexto, “menos macho”). 

Essas ideias exemplificadas do que é “ser homem” ou “ser mulher” não decorrem da genitália com a qual o indivíduo nasceu (nem de seus hormônios, ou de seus cromossomos XX e XY), mas sim são passadas de geração em geração, variando de um lugar para outro, sempre sob o risco de se conservarem injustas quando não questionadas.

É exatamente este tipo de questionamento que se pretende fomentar com a introdução de discussões sobre gênero e diversidade sexual no currículo escolar. São essas variantes históricas e culturais que se pretende estudar.

Por isso, nada mais equivocado do que alguns grupos sociais têm chamado de “ideologia de gênero”. A própria expressão carrega equívocos que evidenciam o pouco (ou nenhum) conhecimento de quem a cunhou sobre o tema, e por isso é importante tentarmos compreender do que falam aqueles que afirmam lutar contra essa tal “ideologia”.

Maíra Zapater é professora e doutora em Direitos Humanos. Clique aqui para saber mais